É uma tolice tremenda, ou mesmo má fé, insistir na conversa de que professor bom trabalha por amor. A verdade é justamente o contrário: professor bom é profissional, ou seja, não faz do magistério um bico, e por isso mesmo precisa de um salário que permita que ele abrace a carreira. Todos que falam que há países que desenvolveram sua educação pública sem bons salários para seus professores ou mentem ou não sabem de nada. Não raro, são paus mandados.
No Brasil, muita gente ou mente ou não sabe de nada ou simplesmente é mesmo pau mandado. Em São Paulo corre uma reforma do ensino municipal, nas mãos do secretário Caligari, que visa fazer com que a escola retome práticas corretas que se perderam. A proposta é de bom senso. Mas não há uma política real, junto da reforma, que vise ampliar salários de modo que possamos ver bons efeitos. O Rio de Janeiro, por sua vez, vê seus professores em concentração de rua, fazendo greve. As coisas vão de mal a pior na vida do professor.
O nosso professor, nos primeiros anos de trabalho, tem um salário que fica entre 1.500 e 800 reais no ensino básico, enquanto que o salário médio do brasileiro com igual escolarização, também no início de carreira, é de 4.500 reais. A diferença é muito grande. Isso torna a carreira do magistério pouco atrativa e, enfim, incapaz de segurar as melhores cabeças, as pessoas que passaram com folga nos concursos. Faz com que os que ficam, se são bons, se tornem revoltados, tristes, desmotivados por não poderem viver inteiramente do que já foi, no Brasil, uma verdadeira profissão: o magistério.
O tempo corre e nada muda. Os governantes, em época de eleição, falam que farão da educação uma prioridade e reconhecem que o salário do professor, do modo que está, não é capaz de sustentar um profissional que possa efetivamente ser profissional do magistério. Mas os mesmos governantes, sem pressão da sociedade, logo depois das eleições esquecem tais promessas antes que quaisquer outras.
Ora, por que nossa sociedade é incapaz de exigir de seus políticos a ampliação do salário do professorado? Por que os governos podem chegar a pensar corretamente sobre pedagogia, mas nunca levam adiante uma política educacional puxada por uma boa política salarial?
Creio que a questão seja de como que os adultos, em especial políticos e governantes, se imaginam diante da figura do professor, considerando que uma tal figura é a testemunha de sua infância. O professor é aquele que não só deu regras que não foram cumpridas, mas que, se não se responsabilizou pela punição, ao menos esteve presente naquela situação em que todos nós, mais tarde, não nos orgulhamos de ter vivido. O professor é aquele cuja presença nos faz sentir como estando diante de nossos pais capazes falar de nossas travessuras, erros, vergonhas e faltas do passado. Não temos que ampliar salários para essas testemunhas – é o que percorre quase que de modo subconsciente nosso cérebro. Qualquer um de nós pode se tornar um mandatário na educação tendo essa indisposição diante do profissional do magistério.
Caso eu não lance mão dessa hipótese esquisita, o que pode restar para explicar a visível má vontade de todo tipo de autoridade diante do professor?
Talvez esta situação seja universal no ocidente. Agora, se ela é válida, podem acreditar: trata-se de algo com forte intensidade no Brasil. O brasileiro não gosta de ser menos que gênio. Ele nunca dá os créditos de sua aprendizagem aos professores, nominando-os. Ou quase isso. Não raro, o brasileiro acredita poder se dizer autodidata. Fala com orgulho essa bobagem que, certamente, não ocorreu.,
Nossa sociedade não gosta de professor. Há algo na autoridade desse personagem que incomoda o brasileiro, que, uma vez governante, age ou com desdém ou com ódio do mestre. Nunca vi um político tomar para si a tarefa de resolver o problema salarial dos professores. Nunca vi mesmo.
Paulo Ghiraldelli, 55, filósofo, escritor, cartunista e professor da UFRRJ
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